A moda circular é o modelo em que a roupa circula por mais tempo antes de virar lixo: é revendida em brechós, consertada, transformada ou refeita a partir de sobras. Em 2026, o brechó deixou de ser nicho no Brasil. Reportagem da Exame de agosto de 2026, com base em dados do Sebrae, fala em cerca de 118 mil brechós ativos no país. E o upcycling, que transforma peças e retalhos em produtos novos, virou uma saída prática para confecções e lojistas que querem reduzir desperdício.
A seguir, os números com fonte, o que é upcycling na prática e como quem produz e vende moda no atacado pode tirar proveito disso com planejamento.
O tamanho do mercado de brechós no Brasil
Não existe um número oficial único e atualizado para o setor. Os dados mais citados vêm do Sebrae, de pesquisas de plataformas de revenda e de consultorias. Por isso, vale olhar cada número com a data e a origem ao lado.
| Dado | Origem | Onde foi publicado |
|---|---|---|
| Cerca de 118 mil brechós ativos, com alta de quase 31% em cinco anos | Sebrae | Exame, agosto de 2026 |
| Projeção de crescimento de 15% a 20% ao ano para a moda circular até 2030 | Boston Consulting Group (BCG) | Exame, agosto de 2026 |
| 56% dos brasileiros já compraram ou venderam itens usados | Estudo da Enjoei de 2023 | Mercado&Consumo, agosto de 2026 |
| Mais de 600 brechós formais em Belo Horizonte | Levantamento do Sebrae Minas com dados da Jucemg | Diário do Comércio, abril de 2023 |
| Cerca de 400 pequenos negócios do segmento abertos em BH entre 2019 e 2022 | Sebrae Minas com dados da Jucemg | Diário do Comércio, abril de 2023 |
O dado de Belo Horizonte é de 2023 e serve como retrato daquele momento, não como número atual. Mesmo assim, ele mostra que a capital mineira já tinha um mercado de usados consolidado antes da onda recente.
Por que o consumidor procura o brechó
Uma pesquisa do Sebrae-SP citada pelo jornal O Hoje em agosto de 2026 ajuda a entender a motivação de quem compra:
- Economia: 71% apontam o preço como principal motivo.
- Qualidade das peças: lembrada por 45%.
- Sustentabilidade: pesa na decisão de 43%.
- Canal de compra: 40% compram roupas usadas pela internet, mas 84% dizem preferir a loja física.
O recado para o varejo é claro: o brechó atrai primeiro pelo bolso e depois pela qualidade. A pauta ambiental soma, mas raramente decide sozinha. E a loja física continua importante, o que conversa com a força de polos de compra presencial como o Barro Preto.
As grandes redes também entraram no jogo
Segundo a Mercado&Consumo (agosto de 2026), varejistas de grande porte passaram a investir em circularidade. A C&A mantém coletores de roupas usadas e uma linha de jeans feita com fio reciclado. A Riachuelo informa aproveitar 85% do tecido cortado em seu parque fabril, com máquinas de encaixe de alta precisão. A Farm Rio destinou 27,8 toneladas de tecido a organizações parceiras em 2025. Quando as grandes marcas mexem no processo, o tema deixa de ser tendência passageira e vira referência de gestão.
O que é upcycling e como ele difere da reciclagem
Upcycling é a técnica de reaproveitar produtos, resíduos e materiais que já existem, e que iriam para o lixo, dando a eles uma nova versão ou outra finalidade. A definição aparece em reportagem de A Gazeta de março de 2025 sobre marcas capixabas que trabalham com jeans reutilizado e retalhos.
A diferença em relação à reciclagem está no caminho. Na reciclagem, o material é desmanchado, desfibrado ou derretido para virar matéria-prima de novo. No upcycling, a peça ou o retalho mantém sua forma e é retrabalhado com costura, recorte, bordado ou montagem. Em geral, o upcycling gasta menos energia e entrega um produto com mais valor de design.
O problema que o upcycling ajuda a resolver
O Brasil descarta um volume grande de têxteis. A reportagem de A Gazeta cita levantamento da Abrelpe, referente a 2022, com cerca de 4 milhões de toneladas de resíduos têxteis por ano, somando retalhos e peças de couro. Em julho de 2026, o portal Movimento Econômico citou estimativa da consultoria S2F Partners de ordem semelhante para o descarte domiciliar, com média de 44 kg de roupas e calçados descartados por residência em 2024.
Parte desse volume nasce dentro da própria confecção, na mesa de corte. Cada sobra de enfesto, cada ponta de rolo e cada peça com defeito pode ser lixo ou pode virar produto.
Como confecções podem aproveitar sobras e retalhos
Para quem fabrica, o primeiro passo não é criativo, é de organização. Sem saber o que sobra, não dá para planejar o reaproveitamento.
- Medir antes de agir. Separe e pese as sobras por tipo de tecido durante algumas semanas. Isso mostra quais materiais sobram em volume suficiente para virar linha de produto.
- Melhorar o encaixe. Um bom encaixe de moldes, manual ou com software de modelagem, reduz a sobra na origem. É o mesmo princípio que grandes redes usam para aumentar o aproveitamento do tecido.
- Separar por cor, fibra e tamanho. Retalho misturado vira lixo. Retalho classificado vira estoque de matéria-prima.
- Criar uma minilinha com sobras. Retalhos maiores rendem peças infantis, bolsas, nécessaires, faixas de cabelo, tops e golas. Os menores servem para patchwork, apliques e acabamentos.
- Usar técnicas manuais. Bordado e fuxico aparecem em trabalhos de artesãos que transformam sobras de tecido em acessórios, e bolsas e sacolas feitas com calças jeans doadas também foram destaque, como mostrou a cobertura da Fenearte de 2026 pelo Movimento Econômico. Patchwork é outra técnica clássica para unir pedaços pequenos.
- Fazer parcerias. Quando a confecção não tem estrutura para produzir com sobras, pode destinar o material a costureiras, artesãos, projetos sociais ou empresas de reciclagem têxtil.
O jeans merece atenção especial. Ele é resistente, aceita recorte e combinação de tons e já tem público que valoriza peças refeitas. Bolsas, sacolas e jaquetas de patchwork em denim são exemplos comuns desse reaproveitamento.
Como o lojista e a revendedora podem se posicionar
Quem não fabrica também pode participar da moda circular, sempre com planejamento e sem esperar milagre de vendas.
- Arara de peças com pequenas avarias: peças de mostruário ou com defeito leve podem ser consertadas e vendidas em um espaço separado, com informação clara ao cliente sobre o estado do produto.
- Curadoria de seminovos: algumas lojas testam receber peças usadas em bom estado como parte de pagamento ou em consignação. Antes, vale estudar a regra fiscal com o contador.
- Customização como serviço: barras, ajustes e aplicações com retalho podem fidelizar a cliente e dar vida nova a peças paradas no estoque.
- Comunicação honesta: se a peça é feita com sobras, diga isso. Se não é, não use o termo. A cliente de brechó tende a ser atenta e desconfia de discurso vazio.
- Durabilidade na compra: ao montar o estoque, priorize peças bem costuradas e tecidos que aguentam muitas lavagens. Roupa que dura é a base de qualquer modelo circular, porque é ela que vai chegar ao brechó depois.
O olhar do Barro Preto: atacado e moda circular
O Barro Preto é um polo de moda atacadista com confecções, lojas de pronta-entrega e mão de obra de costura concentradas num mesmo bairro. Essa proximidade facilita o que a moda circular pede: conversa entre quem corta, quem costura e quem vende.
Para a revendedora ou dona de brechó que quer misturar novo e usado no mesmo estoque, uma estratégia é usar o atacado para comprar básicos duráveis, como jeans e peças de alfaiataria, e completar a vitrine com achados de segunda mão. No guia de lojas de moda do Barro Preto, há opções focadas em jeans, como a Lay Jeans, que atende no atacado com ênfase em jeanswear e pronta-entrega, a Cláudia Rabelo I, também no atacado e ligada ao jeans, e a Blê Jeans, que vende no atacado e no varejo jeans feminino e masculino.
Se você vai visitar o bairro pela primeira vez, a página Conheça o Barro Preto ajuda a se orientar. E se a sua confecção, loja ou brechó já trabalha com reaproveitamento, vale cadastrar a empresa no portal para ser encontrada por quem procura esse tipo de produto.
O que observar daqui para frente
Os números de 2025 e 2026 mostram um setor de usados em expansão, com projeções de crescimento anual de dois dígitos até 2030 feitas pelo BCG. Ao mesmo tempo, as próprias reportagens reconhecem que faltam dados oficiais consolidados. Para quem trabalha com moda, o caminho mais seguro é tratar a circularidade como gestão: medir sobras, planejar o reaproveitamento, comprar melhor e comunicar com transparência.
Acompanhe outras matérias sobre o mercado de moda na editoria de notícias do Portal do Barro Preto.
Perguntas frequentes
Quantos brechós existem no Brasil?
Segundo dados do Sebrae citados pela Exame em agosto de 2026, são cerca de 118 mil brechós ativos no país, com alta de quase 31% em cinco anos. Não há um número oficial consolidado mais recente.
Qual a diferença entre upcycling e reciclagem?
Na reciclagem, o material é desmanchado para voltar a ser matéria-prima. No upcycling, a peça ou o retalho é retrabalhado com costura, recorte ou bordado e ganha uma nova versão, sem passar por esse processo industrial.
O que uma confecção pode fazer com retalhos?
Pode separar as sobras por tipo de tecido e cor, criar uma pequena linha de acessórios e peças com elas ou destinar o material a costureiras, artesãos, projetos sociais e empresas de reciclagem têxtil.
Por que os consumidores compram em brechós?
Pesquisa do Sebrae-SP citada pelo jornal O Hoje em 2026 aponta a economia como principal motivo (71%), seguida da qualidade das peças (45%) e da sustentabilidade (43%).
Fontes consultadas
- O mercado de segunda mão é o novo luxo na moda? — Exame (04/08/2026)
- Brasileiro economiza, e mercado de brechós dispara no país — O Hoje (03/08/2026)
- Do brechó às grandes redes: moda circular ganha força na Riachuelo, C&A e Farm Rio — Mercado&Consumo (21/08/2026)
- Upcycling na moda: marcas do ES transformam resíduos em estilo sustentável — A Gazeta (29/03/2025)
- Fenearte: resíduos ganham nova vida e viram itens de moda — Movimento Econômico (14/07/2026)
- Sebrae reforça relevância do mercado de brechós — Diário do Comércio (20/04/2023)
Publicado em 05/11/2026 pela redação do Portal do Barro Preto.
Imagem de capa: Foto: MAKY.OREL — CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons






